Fuga do Oásis - Capítulo 05

Capítulo 05: Não Patrulhe Sozinha
As pontas das gramíneas altas são iluminadas pela luz divina de Bitú, enquanto os caules, tão próximos uns dos outros que até uma formiguinha precisa abrir caminho entre eles, permanecem submersos na escuridão. Essas paredes de vegetação rasteira formam labirintos e trilhas estreitas onde seres perversos se escondem. Para não ser pega de surpresa, é preciso enxergar além do véu que cobre seus olhos. Assim como nos túneis do formigueiro, a audição e o olfato são seus melhores amigos.
Uma folha após a outra, Relva avança esticando as pernas e agarrando-se à superfície aveludada com seus pequenos pares de garras curvas. As antenas tateiam o caminho ao longo da linha das mandíbulas, na tentativa vã de encontrar a textura familiar do solo seco.
Ela não fazia ideia de que aquelas plantas eram tão maiores do que insetos e, ainda assim, tão menores do que as árvores e os arbustos que agora eram impossíveis de avistar por entre a copa esverdeada.
A operária concentra-se no aroma do gramado, terroso e adocicado como no dia em que escolheu seu próprio nome. Os feromônios de suas irmãs seriam mais fáceis de detectar se não fosse pela mistura desse cheiro com o fedor pútrido e amadeirado dos cupins.
Um pé pisa em algo úmido. Ela leva as garras à boca e cospe. Hemolinfa fresca.
Pelos sensíveis captam oscilações na vegetação. Movimentos erráticos de criaturas invisíveis, que se entrelaçam a cada farfalhar do capim alto. O silvo agudo de uma formiga com dor atravessa o ar.
Relva tenta chegar mais perto, mas algo agarrando uma de suas pernas traseiras a impede. A sensação do exoesqueleto sendo pressionado por mandíbulas serrilhadas se espalha imediatamente por seu corpo, e ela se vira, ficando finalmente cara a cara com o inimigo.
O inseto é um pouco menor que uma formiga, de cor clara e abdômen macio, como se uma larva gordinha tivesse crescido pernas e saído para arrumar confusão. A cabeça, em contraste, é marrom-escura e rígida, completamente desprovida de olhos.
Mais um puxão. As garras de Relva escorregam, e ela cai de cabeça para baixo, o tórax colidindo com força contra o caule da planta. O cupim está agora diretamente acima dela, tentando cortar os ligamentos da perna imobilizada.
No entanto, a mordida desse detritívoro não é afiada o suficiente. Isso dá à formiga tempo para erguer os membros livres e chutá-lo, forçando-o a recuar. Uma vez solta, ela se lança para cima, abrindo bem as mandíbulas e desferindo um golpe no rosto daquela pobre criatura pálida, mostrando a ele o que é uma mordida de verdade.
A colisão faz o cupim perder o equilíbrio. Ele cai de barriga para cima em uma fissura nas raízes emaranhadas do gramado. Tendo incapacitado temporariamente seu adversário, Relva continua em busca das outras formigas, afastando-se antes que ele revide.
Tudo o que ela consegue sentir é o gosto de madeira. Suas mandíbulas cortam pela primeira vez outro inseto, no lugar de folhas. Exatamente como teriam feito se o encontro com aquele selvagem tivesse tomado um rumo diferente. É um sabor que perdura no paladar, por mais que se tente ignorá-lo.
Se ao menos esse não fosse o único meio de proteger o formigueiro. E se ao menos os horrores de uma batalha entre colônias terminassem assim tão fácil.
Finalmente, Relva avista uma das soldadas. Uma formiga pequena e ágil que poderia facilmente ser confundida com uma operária. Suas mordidas são mortalmente certeiras. O inseto inimigo tenta acompanhar o ritmo acelerado, porém, toda vez que ele se volta para retaliar, a soldada já está do lado oposto, mordendo-lhe incessantemente os pés até fazê-lo tombar.
Exausto, o cupim tropeça nas próprias pernas. Uma oportunidade perfeita. A formiga escala sobre ele e se agarra ao seu abdômen como um carrapato, preparando-se para o golpe final.
Mas há mais alguém, além de Relva, assistindo à luta.
Do topo de uma flor silvestre que cresce teimosamente entre a grama alta, surge um inseto semelhante àqueles que as atacam. No entanto, embora seja menor de corpo, sua cabeça é muito maior, ostentando uma estrutura longa e pontiaguda, como o bico afiado de uma besta alada.
Pressentindo que algo ruim está prestes a acontecer, mas sem tempo para impedir o ataque, Relva a alerta:
“Cuidado! Lá em cima!”
Sem mandíbulas, sem garras. O cupim soldado entra no campo de batalha com um disparo.
Um líquido pegajoso jorra daquela estrutura em sua cabeça, quase atingindo a formiga. Ela reage com rapidez ao chamado de Relva, escapando no mesmo instante em que o cupim caído é atingido. Assim como numa teia de aranha, ele fica imobilizado. Mas, diferentemente da seda, esse fluido é mais espesso. Quanto mais a vítima se debate para se libertar, mais ele gruda nos segmentos de seu exoesqueleto, penetrando entre cada fenda e articulação.
Antes que ele recarregue o segundo tiro, as duas irmãs se reúnem. A soldada empurra Relva para baixo e ordena que ela fique o mais próxima possível do solo até encontrarem um local seguro. Tal abrigo temporário surge na forma de uma pedra plana levemente inclinada, proporcionando um pequeno pedaço de terra fofa onde ambas se espremem para recuperar o fôlego.
Elas trocam olhares e toques de antenas. A operária acha estranho que uma soldada se pareça tanto com ela. Alguns dos espinhos em suas costas são quebrados e rachados, mas o tamanho deles, juntamente com as mandíbulas fortes e escurecidas, comprovam que, sim, ela é uma soldada. E uma altamente experiente em combate, por sinal.
Com todas as seis pernas intactas, essa deve ser a Casca, conclui Relva.
“O que uma coletora como você faz aqui sozinha? Como você passou por Pena e Brisa?”
Casca pergunta, ainda esfregando suas antenas contra o corpo de Relva. Ela tem certeza de que a soldada pode sentir o cheiro do berçário. Tudo nela grita que ela é uma jovem inexperiente sem nenhuma razão para estar ali. A operária luta para encontrar as palavras certas, sem estômago para admitir a verdade, mas também sem desculpas para justificar sua presença.
“Eu… E—”
“Esqueça, cuidamos disso depois,” Casca espreita por baixo da pedra, pernas tensas e pés firmemente pressionados contra o chão, empenhada em detectar até mesmo a mais leve vibração. Mas o campo permanece estranhamente silencioso. “Você sabe onde estão, é isso que importa, não é?”
“Sei sim.”
“Ótimo, precisamos do reforço delas o mais rápido possível, vá buscá-las!”, suas mandíbulas se movem em cliques afobados. Relva demora um pouco para entender tudo, tempo suficiente para a soldada avançar sobre ela com uma cabeçada. “Vamos, vá atrás delas!”
“E-estou indo!”
“Não, espere!”
Relva mal tem tempo de sair do esconderijo quando a formiga mais velha salta na sua frente, bloqueando o caminho. Casca respira pesadamente, virando a cabeça repetidamente de um lado para o outro, como se algo pudesse saltar das sombras a qualquer momento. O que é, de fato, uma possibilidade.
“Droga, isso é arriscado, mas sou melhor nisso do que você. Deixe que eu vou.”
“Você? Mas—”
“Eu sou mais rápida, simples assim! Escute, vá procurar Hera. Ela deve estar precisando de ajuda, eu já volto!”
“Mas, Casca…”
“Agora!”
“Casca!”
Não adianta chamá-la. Mais rápida do que uma mosca faminta, Casca desaparece no matagal, deixando Relva sozinha sob aquela rocha parcialmente banhada por Bitú. Hesitante, ela caminha na direção oposta, erguendo o rosto ao céu em uma oração silenciosa para que o Pai da Noite e os vaga-lumes lhe concedam força e guiem seus passos.
Talvez eles tivessem realmente ouvido sua prece. Pois não demora para que Relva encontre Hera, presa com suas cinco pernas a uma fina e frágil lâmina de grama, que se curva em um arco sob o peso dela e dos insetos adversários. A formiga tenta ficar o mais perto possível, sem dar espaço para levar um tiro. Suas grandes mandíbulas estão cravadas no tórax do cupim soldado, enquanto um dos operários tenta utilizar da pouca força de seus membros dianteiros para afastá-la.
Hera é uma veterana grande e poderosa, mas, aos poucos, ela vai deslizando junto com o cupim em direção à borda da folha. O operário só precisa de mais algumas tentativas até que ela se canse e seu aliado consiga escapar.
Um puxão atrás do outro, e o abraço violento dela começa a se desfazer. Relva escala até eles, a haste esguia a balançar no ritmo de pisadas apressadas. As mandíbulas afundam diretamente no abdômen exposto do inimigo, totalmente diferente do exoesqueleto rígido e espinhoso que ela e suas irmãs carregam.
Mais macio do que deveria ser.
Hemolinfa jorra do ferimento. A operária recua imediatamente, fluido vital escorrendo pelo rosto e obscurecendo parte de sua visão. Ela cospe repetidamente, esfregando a cabeça com os membros dianteiros. O cupim solta Hera num gemido profundo e angustiado.
Com toda a força, a formiga avança, mandando ela e o soldado ao chão entre os caules. Em um ato final de puro desespero primitivo, ele dispara do canhão fontanelar em sua cabeça.
O projétil passa raspando por Hera, mas acerta Relva em cheio no pé traseiro esquerdo. A coletora, horrorizada, puxa com insistência e se debate, esticando e flexionando cada músculo e ligamento da perna para livrar-se daquele líquido viscoso.
Ela ergue os olhos de sua prisão grudenta para o cupim operário. Ele está a poucas antenas de distância, tentando, em vão, estancar o sangramento dos dois grandes cortes na lateral do abdômen. Tremendo. Lutando para manter a consciência e a coordenação de seus movimentos.
Dois insetos forçados pelo infortúnio a cruzar caminhos. A formiga, vítima da própria curiosidade e teimosia, dificilmente poderia reclamar de seu destino. Mas que circunstâncias levaram esses cupins operários a terminar ali, lado a lado com os soldados, tão perto do formigueiro? Eles eram invasores, ela não deveria se arrepender de ter protegido uma de suas irmãs. E mesmo assim…
“Você vai ficar be—?”
Ele salta sobre ela. Apesar dos ferimentos. Apesar da exaustão. O cupim ainda luta. Relva cai de costas, seu corpo ficando pendurado pelos pés. O inimigo lhe arranha e morde com violência descontrolada. O som de tecidos sendo rasgados ecoa entre os dois. Relva tenta usar os membros que ainda lhe restam para afastá-lo, mas ele crava as garras nela. Uma de suas antenas é atingida e, em retaliação, a coletora bate a cabeça contra a dele. Tosses e chiados sobem por sua garganta.
“Pare! Você vai se partir ao meio se continuar assim!”
O cupim não responde. Mesmo atordoado, ele volta a lançar sua cabeça rígida para frente, apertando as mandíbulas uma contra a outra e quase cravando-as nos olhos da formiga.
Relva sente as laterais do rosto sendo atingidas cada vez que ela se esquiva. Dói. Confunde os sentidos. A deixa com raiva. Não importa o quanto implore para que essa loucura de luta sem sentido acabe. Não importa o que faça, o outro inseto não dá ouvidos.
“CHEGA!”, ela não quer. Ela precisa. É ele ou ela. Não pode ser ela. Não pode.
Formigas-cortadeiras são conhecidas por suas capacidades físicas impressionantes, mesmo sendo pequenas. Elas conseguem carregar várias vezes o peso do próprio corpo sem se cansar. E podem aplicar essa mesma força às suas poderosas mandíbulas reforçadas com metais pesados.
Relva tem convicção absoluta de que as suas, em particular, não foram feitas para o que ela as está obrigando a fazer. Ela verdadeiramente só queria estar cortando folhas agora.
Uma mordida. É tudo o que precisa.
A cabeça do cupim se desprende do corpo com a mesma facilidade que uma jabuticaba madura cai dos galhos da árvore, e despenca para sumir nas sombras abaixo com o mesmo baque úmido.

Eiii, eu não morri (ainda)! O mesmo não pode ser dito desse cupim… Bem, essas coisas acontecem. Na verdade, aconteceram muitas coisas nos últimos meses. Concluí meu segundo curso superior, fiz planos para comprar meu primeiro carro, tirei algumas semanas de folga do trabalho e executei outros projetos pessoais e profissionais importantes que acabaram me mantendo longe do Oasis por um tempo. Como punição pela minha negligência, Relva agora tem trauma de guerra.
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